A Matriz de criticidade de fornecedores é um método prático de segmentação que classifica fornecedores pela combinação de risco, impacto no negócio e substituibilidade. Em vez de tratar todos como “A, B, C” apenas por gasto, a matriz orienta decisões de governança, homologação, contratos, SLAs, dual sourcing e planos de contingência. O resultado é redução de interrupções, menos exposição a passivo e mais captura de savings na execução.
O que você vai ver neste post
- Por que a Matriz de criticidade virou peça de governança e não só um “mapa”
- Risco, impacto e substituibilidade: as 3 dimensões que mudam a segmentação
- Como construir a Matriz de criticidade em 7 passos
- Modelo de pontuação: pesos, faixas e critérios prontos
- Exemplo pronto de Matriz de criticidade com fornecedores fictícios
- O que fazer em cada quadrante: governança, SRM, contrato, auditoria e contingência
- Como evitar “falso crítico” e “crítico invisível”
- KPIs e rotina de revisão: como manter a matriz viva
- Checklist final para aplicar ainda este mês
Por que a Matriz de criticidade virou peça de governança e não só um “mapa”
Em muitas áreas de compras, segmentação de fornecedores ainda significa “quem gasta mais entra no topo”. Esse recorte ajuda, mas não resolve o que realmente derruba operação e destrói valor: o risco material e a dependência.
A Matriz de criticidade entra como instrumento de governança porque conecta quatro temas que, na prática, andam juntos:
- gestão de risco (operacional, financeiro, reputacional e compliance)
- performance (SLA, qualidade, OTIF, suporte, capacidade)
- resiliência (substituibilidade, dual sourcing, planos B)
- controle de valor (captura de savings ao longo do contrato e da execução)
Se a sua empresa já vem avançando em governança e visibilidade, este conteúdo faz uma ponte direta com a mesma lógica: Compliance: a importância da visibilidade e do controle.
Um ponto importante: a matriz não substitui SRM, vendor list, homologação ou CLM. Ela prioriza onde colocar energia, qual ritual aplicar e qual nível de controle faz sentido, inclusive para não burocratizar o que não é crítico.
Risco, impacto e substituibilidade: as 3 dimensões que mudam a segmentação
A maioria das matrizes clássicas trabalha com 2 eixos. Aqui, o diferencial está em tratar substituibilidade como dimensão explícita, porque ela separa “importante” de “dependente”. Em uma cadeia madura, você pode até ter um fornecedor de alto impacto, mas não necessariamente crítico se ele for substituível com facilidade.
1) Risco: probabilidade e exposição combinadas
Risco não é só “chance de dar problema”. É chance multiplicada por consequência, e em fornecedores isso aparece em camadas:
- risco operacional (capacidade, qualidade, entrega, continuidade)
- risco financeiro (liquidez, concentração de receita, endividamento)
- risco de compliance (sanções, irregularidades, fraudes, conflitos de interesse)
- risco ESG e reputacional (práticas trabalhistas, ambiental, rastreabilidade)
- risco cibernético e de dados (especialmente em serviços e tecnologia)
Para reforçar a visão de risco aplicada ao contexto de procurement, há um bom apoio aqui: Mitigação de riscos: garantindo a segurança e a eficiência.
2) Impacto: quanto o fornecedor afeta resultado e operação
Impacto não é só gasto anual. É o potencial de interferência em:
- receita (paralisação de vendas, perda de clientes, indisponibilidade)
- custo total (retrabalho, devolução, falhas, garantia, urgências)
- conformidade (auditorias, multas, passivos)
- produtividade interna (tempo gasto “apagando incêndio”)
- continuidade do serviço (manutenção, facilities, TI, logística)
Se você usa métricas como TCO e cost avoidance para discutir valor e não apenas preço, a matriz ganha consistência: Guia definitivo: quando usar TCO, Cost Breakdown, Cost Saving e Cost Avoidance.
3) Substituibilidade: o eixo que impede dependência disfarçada
Substituibilidade mede o quão rápido, viável e seguro é trocar o fornecedor sem quebrar o negócio. Ela depende de fatores como:
- número de alternativas qualificadas no mercado
- tempo de homologação e validação técnica
- barreiras de troca (integrações, tooling, especificação exclusiva, propriedade intelectual)
- disponibilidade regional e logística
- complexidade de transição (treinamento, documentos, certificações)
Quando substituibilidade é baixa, o fornecedor tende a virar “crítico” mesmo que o gasto não seja tão alto. Esse é o “crítico invisível” que costuma passar batido quando a empresa segmenta só por spend.
Como construir a Matriz de criticidade em 7 passos
A proposta aqui é um método que funciona tanto em empresas com área de procurement estruturada quanto em times menores que estão saindo da planilha e indo para um processo mais governado.
Passo 1) Defina o universo de fornecedores e consolide dados mínimos
Você pode começar com:
- top fornecedores por gasto
- fornecedores que suportam operações críticas (TI, manutenção, logística, produção)
- fornecedores com histórico de não conformidade
- fornecedores com contratos longos e renovação automática
Se você ainda está organizando a base e a disciplina do time, vale complementar com: Como estruturar a área de procurement em 2025: funções, senioridades e KPIs por cargo.
Passo 2) Escolha critérios objetivos para cada dimensão
O erro clássico é criar critérios “bonitos”, mas subjetivos. O ideal é que qualquer analista do time consiga pontuar com consistência, e que os critérios conversem com seus dados reais.
Uma forma prática é criar de 5 a 8 critérios por dimensão, com escala de 1 a 5, e depois aplicar pesos.
Passo 3) Defina pesos por categoria e por tipo de negócio
Uma empresa intensiva em produção pode dar mais peso para entrega e qualidade. Uma empresa de serviços pode dar mais peso para continuidade, SLA e dados. Em compras públicas ou reguladas, compliance e regularidade entram com mais força.
Se o seu contexto tem preocupações de regularidade e integridade em cadastros e bases públicas, vale ter esse apoio como referência: CEPIM: como consultar, interpretar e manter regularidade.
Passo 4) Pontue fornecedores e valide com áreas usuárias
Matriz feita “só por compras” costuma errar impacto, porque impacto real aparece na operação. Inclua uma validação simples com:
- dono do processo interno (demandante)
- qualidade/engenharia (quando houver)
- financeiro (quando houver)
- jurídico/compliance para critérios críticos
Passo 5) Converta pontuação em quadrantes e regras de governança
O valor real da matriz não é a nota. É o que você faz com ela:
- quais rituais de SRM aplicar
- qual nível de contrato e SLA exigir
- quais auditorias e checks de compliance rodar
- quando adotar dual sourcing
- quando criar estoque de segurança ou plano de contingência
Se você já trabalha SRM, a matriz vira o motor de priorização: Um guia completo para gestão de relacionamento com fornecedores (SRM).
Passo 6) Amarre a matriz ao ciclo de compras e ao contrato
Se a criticidade não influencia RFQ, negociação e contrato, ela vira um relatório parado.
Duas conexões típicas:
- RFQ mais rigoroso para fornecedores críticos (critérios técnicos, evidências, cláusulas e SLA)
- cláusulas de continuidade, auditoria, penalidades e change control mais fortes no contrato
Para reforçar o papel do contrato como instrumento de vantagem e controle, use como apoio: Gestão de contratos: como transformar um setor crítico em uma vantagem competitiva.
Passo 7) Crie um ritual de revisão e mantenha “alertas” de mudança
Fornecedor muda. Mercado muda. Categoria muda. A matriz precisa de cadência:
- trimestral para críticos
- semestral para estratégicos
- anual para os demais
Além disso, defina gatilhos de revisão fora do calendário: mudança de CNPJ, troca de sócios, queda de performance, sinistro, ruptura, processo trabalhista relevante, auditoria.
Modelo de pontuação: pesos, faixas e critérios prontos
A seguir, um modelo pronto com escala de 1 a 5 e pesos sugeridos. Você pode ajustar conforme setor e maturidade.
Critérios por dimensão
Risco (peso sugerido: 40%)
- estabilidade financeira percebida
- histórico de entrega e qualidade
- exposição a compliance e integridade (sanções, irregularidades, conflitos)
- risco de continuidade (capacidade, dependência de insumos, concentração)
- risco de dados e segurança (quando aplicável)
Impacto (peso sugerido: 40%)
- impacto em operação (paralisação, retrabalho, indisponibilidade)
- impacto em receita (perda de vendas ou clientes)
- impacto em custo total (falhas, urgências, garantias)
- impacto em conformidade (auditorias, multas, passivos)
- criticidade do item/serviço para o core do negócio
Substituibilidade (peso sugerido: 20%)
- número de alternativas qualificadas
- tempo de troca e homologação
- barreiras técnicas e contratuais (lock-in)
- dependência regional e logística
- esforço de transição (treino, migração, documentação)
Dica de consistência: em substituibilidade, “nota alta” pode representar “difícil de substituir”. Isso ajuda a somar criticidade. Só mantenha a lógica igual para todos.
Tabela de pesos e faixas sugeridas
| Dimensão | Peso | Escala | Interpretação (nota 5) |
|---|---|---|---|
| Risco | 40% | 1 a 5 | risco elevado ou pouco controlado |
| Impacto | 40% | 1 a 5 | impacto muito alto em operação/resultado |
| Substituibilidade | 20% | 1 a 5 | difícil substituir (alto lock-in) |
Fórmula simples (pronta para planilha)
- Score final = (Risco x 0,4) + (Impacto x 0,4) + (Substituibilidade x 0,2)
Depois, você define faixas:
- 4,0 a 5,0: Crítico
- 3,0 a 3,9: Estratégico
- 2,0 a 2,9: Tático
- 1,0 a 1,9: Transacional
Essas faixas não são “universais”. O importante é ter cortes que façam sentido para governança.
Exemplo pronto de Matriz de criticidade com fornecedores fictícios
Abaixo, um exemplo completo com 8 fornecedores fictícios. Você pode copiar e colar em uma planilha, ajustar pesos e já começar a aplicar com dados reais.
Dataset do exemplo
| Fornecedor | Categoria | Risco (1-5) | Impacto (1-5) | Substituibilidade (1-5) | Score | Segmento |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Alfa Cloud | TI infraestrutura | 3 | 5 | 4 | 4,0 | Crítico |
| Beta Manutenção | Manutenção industrial | 4 | 4 | 3 | 3,8 | Estratégico |
| Gama Embalagens | Embalagens | 2 | 3 | 2 | 2,4 | Tático |
| Delta Log | Logística regional | 4 | 5 | 4 | 4,4 | Crítico |
| Épsilon Facilities | Facilities | 3 | 3 | 3 | 3,0 | Estratégico |
| Zeta Químicos | Insumos regulados | 5 | 4 | 5 | 4,8 | Crítico |
| Ômega MRO | Itens MRO | 2 | 2 | 1 | 1,8 | Transacional |
| Sigma Consultoria | Serviços especializados | 3 | 4 | 5 | 3,8 | Estratégico |
Como o score foi calculado (exemplo do Alfa Cloud):
(3 × 0,4) + (5 × 0,4) + (4 × 0,2) = 1,2 + 2,0 + 0,8 = 4,0
Transformando score em “matriz” visual de decisão
Você pode montar a visualização em 2 eixos e usar substituibilidade como “camada” (cor, etiqueta ou regra). Um desenho simples:
- Eixo X: Impacto (baixo → alto)
- Eixo Y: Risco (baixo → alto)
- Substituibilidade: etiqueta “fácil / média / difícil” ou um terceiro indicador
O que importa é o efeito: dois fornecedores com impacto alto podem ter governanças diferentes se um é substituível e o outro é um lock-in técnico.
O que fazer em cada quadrante: governança, SRM, contrato, auditoria e contingência
Aqui é onde a matriz vira prática. Abaixo, um playbook direto por segmento.
1) Fornecedores críticos (alto risco e alto impacto, baixa substituibilidade)
Esses são os fornecedores que, se falharem, geram ruptura, passivo, dano reputacional ou perda relevante de receita. Para eles, a empresa precisa de “controle proporcional”, e não excesso de burocracia em todo o resto.
Rotina recomendada:
- QBR ou reunião mensal de performance, com indicadores e plano de ação
- SLA explícito, critérios de aceite e penalidades executáveis
- auditoria e checks de compliance mais frequentes
- plano de continuidade (plano B, estoques, alternativas qualificadas)
- governança de mudanças e contrato robusto
Se você quer reforçar a base de “conhecer” o fornecedor além do preço, esse backlink encaixa bem: Know Your Supplier (KYS): um guia para empresas e gestores.
2) Fornecedores estratégicos (alto impacto ou alta dependência, com risco controlável)
Estratégicos não são necessariamente “perigosos”, mas são relevantes para execução e competitividade. Aqui, o foco é performance e relação de longo prazo, com governança clara.
Boas práticas:
- metas conjuntas (qualidade, prazo, custo total)
- melhoria contínua e projetos de eficiência
- revisão de contrato e reajuste com disciplina
- gestão de demandas e previsibilidade para evitar urgência
Se você trabalha com cycles de melhoria e maturidade, pode conectar com: PPMS: como criar um ciclo de melhoria contínua.
3) Fornecedores táticos (impacto médio, risco médio, substituíveis)
Táticos costumam ser o “miolo” do spend e dão muito trabalho quando o processo é frágil. A matriz ajuda a evitar desperdício de energia aqui: aplica-se padrão, automação, catálogos e controle de conformidade.
Recomendações:
- contratos padrão por categoria
- catálogo e itens bem parametrizados
- três cotações quando fizer sentido, sem inflar burocracia
- acompanhamento por exceção (só quando há desvio)
Se você quer reforçar ganho de eficiência migrando do improviso para processo, use: 5 razões para migrar da planilha para uma plataforma de compras em 2025.
4) Fornecedores transacionais (baixo impacto, baixo risco, altamente substituíveis)
Aqui, o objetivo é simplicidade com controle básico. Esse quadrante é onde a empresa geralmente perde tempo, criando complexidade para “compras pequenas” e deixando o crítico sem atenção.
Boas práticas:
- padronização, catálogos, fornecedores homologados
- regras simples de aprovação e limites
- automação do processo e auditoria amostral
Uma ponte útil com governança de base é: Quer criar uma política de compras de qualidade?.
Como evitar “falso crítico” e “crítico invisível”
Duas distorções são comuns:
Falso crítico: gasto alto, mas substituível e com risco baixo
Um fornecedor pode ter gasto alto porque atende volume, mas existir mercado amplo, contrato simples e baixo risco. Se você tratá-lo como crítico, vai gastar governança onde não precisa e “poluir” o portfólio de rituais.
Sinal típico de falso crítico:
- há muitos equivalentes qualificados
- troca é rápida e pouco custosa
- produto é padronizado
- não há lock-in tecnológico ou regulatório
Crítico invisível: gasto médio, mas impacto alto e substituição lenta
Esse é o mais perigoso. Geralmente aparece em:
- serviços de TI com integrações
- manutenção de equipamentos específicos
- insumos regulados
- logística regional com capacidade limitada
- consultorias altamente especializadas com conhecimento tácito
Para reduzir esse risco, sua matriz precisa “escutar” a operação, não só o financeiro.
Uma boa forma de fortalecer essa visão é conectar a matriz aos seus mecanismos de auditoria e revisão, inclusive para bases de integridade quando aplicável: O papel das auditorias no processo de compras.
KPIs e rotina de revisão: como manter a matriz viva
Uma matriz feita uma vez vira fotografia. Compras precisa de filme.
KPIs recomendados por segmento
Críticos
- OTIF, SLA e não conformidades
- tempo de recuperação em incidentes (MTTR, quando aplicável)
- índice de dependência (share of wallet e concentração)
- número de alternativas qualificadas e status do plano B
Estratégicos
- custo total (tendência), projetos de eficiência, lead time
- aderência a cláusulas contratuais e evidências de entrega
- evolução de performance por trimestre
Táticos e transacionais
- conformidade de preço e especificação
- tempo de ciclo do processo e retrabalho
- incidência de compras emergenciais
Se você quer amarrar isso a dados e inteligência de decisão, uma referência útil é: Business Intelligence na gestão de compras: tecnologia e transformação.
Cadência sugerida
- críticos: revisão trimestral e gatilhos imediatos em incidentes
- estratégicos: revisão semestral
- táticos/transacionais: revisão anual, com auditoria amostral
Matriz madura não é a que tem mais critérios. É a que muda a decisão no momento certo: homologar, contratar, exigir SLA, criar alternativa, ou simplificar o processo.
Checklist final para aplicar ainda este mês
- Liste os fornecedores que sustentam o core da operação, não apenas o top spend
- Defina critérios objetivos para risco, impacto e substituibilidade (escala 1 a 5)
- Aplique pesos por realidade do negócio (não copie sem ajustar)
- Valide impacto com áreas usuárias e riscos com compliance/jurídico quando necessário
- Transforme o score em regras de governança (rituais, contrato, SLA, auditoria, contingência)
- Conecte a matriz ao RFQ e ao contrato para não virar “relatório”
- Crie cadência de revisão e gatilhos de atualização fora do calendário






